segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Caiu a ficha! (e doeu.)

Desde o relato do meu parto não escrevi mais nada aqui. Primeiro porque não tá sobrando tempo com a Sofia, e segundo porque não vinham as palavras, apesar de ter pensamentos demais!

Recebi, a título de curiosidade, inúmeras criticas (diretas e indiretas) pelo meu relato, como sabia que aconteceria. Médicos, estudantes de medicina, filhos de médicos, sobrinhos de médicos, enfermeiras e simpatizantes afins postaram em seus murais do facebook - e alguns até me mandaram inbox - sobre a minha ignorância e ingratidão. Apesar da opinião alheia não me fazer muita diferença, ficou a dúvida se eu realmente estava sendo ignorante, e se eu realmente tive uma cesárea necessária no fim das contas.

Fui, portanto, perguntar a especialistas, médicos e enfermeiras obstetras que fazem partos humanizados o que eles achavam do meu caso. Depois deles avaliarem todo o quadro clínico que eu e minha filha estávamos, veio a dura verdade: "Você poderia ter tido o parto normal." Sim, eu fui mais uma que caiu no conto da desne-cesárea.

Mas como assim? Bom, nós ouvimos que a Sofia estava taquicárdica, aspirando mecônio e em sofrimento fetal, me levando a uma cesárea de emergência. Porém, as notas de Apgar dela foram 9 e 10 - incompatíveis com esse tipo de quadro. Um bebê em sofrimento fetal teria nascido com notas baixas de Apgar. Além disso, um bebê que aspira mecônio e está mal deve ser levado diretamente à UTI, e não aspirado, segundo os novos protocolos de reanimação neonatal.
Por fim, para uma gestante que já está em trabalho de parto e com dilatação, é recomendado que se ministrem antibióticos e ocitocina sintética para acelerar o processo, para que o bebê possa nascer de parto normal. Ou seja, foi sim, uma cesárea desnecessária.

Ouvir isso repetidamente de todas as pessoas que consultei, e ver a ficha cair desse jeito foi um baque bem dolorido. Acho que eu gostava de acreditar que a cesárea tinha sido realmente necessária, que minha vida e da Sofia tinha sido "salva" como disseram por aí - coisa que ajudava a amenizar o péssimo tratamento.

E eu também estou cansada de pensar nos "ao menos". "Ao menos" vocês estão bem agora! "Ao menos" já passou! "Ao menos" não aconteceu nada de mais grave com vocês! Nós não precisaríamos dessas palavras em nosso vocabulário se o hospital que nos atendeu tivesse em seu quadro de funcionários uma equipe humanizada, como tanto prega os cartazes colados no corredor e salas da maternidade.

Além de tudo isso, ouvi do GO humanizado que:
- SIM, eu poderia ter segurado a Sofia logo que ela nasceu;
- SIM, eu poderia ter amamentado na sala de cirurgia;
- e SIM, eu poderia ter me recuperado da cesárea diretamente no quarto, na companhia do meu esposo e da minha filha.

Eu costumo chamar o nascimento da Sofia do meu "não-parto". Pode ser muito fácil para quem não viveu, não conhece ou escolheu passar por isso julgar e colocar em xeque o momento que vivemos. Mas através de tudo o que aconteceu, pude me informar ainda mais a respeito, e hoje posso dizer que sei, a plena consciência, dos procedimentos médicos pelos quais passamos - os necessários e os desnecessários. Minha ignorância foi substituída por uma dura verdade e por "mais do mesmo" que muita gestante passa por aí. Soma-se a tudo isso o índice estratosférico de cesáreas que o hospital em questão tem - tanto de emergência quanto de eletivas - e já se tem o resultado nem um pouco inesperado de que as coisas não seriam muito diferentes a menos que tivéssemos contratado toda uma equipe humanizada para atender o meu parto.

Acredito que o mais difícil pra mim era não ter entendido ao certo como tudo aconteceu. Afinal tinha ali um barrigão e de repente um bebê no colo. Não vi a transição, não senti. Foi só trabalho de parto e recuperação pós parto - pulando o parto de fato!

Mas estou mais em paz comigo mesma depois de ter buscado mais informação. Conheci 2 grupos no facebook e li muitos relatos de outras mulheres que passaram por situações iguais ou semelhantes - e tiveram reações de terceiros também muito parecidas. Fico feliz em ter recebido muito mais comentários positivos e de apoio do que críticas, principalmente das meninas da enfermagem. Fico contente também em não ser mais ignorante sobre o que aconteceu conosco.

Agora, ando lendo muito sobre o tal do VBAC (vaginal birth after caesarean)... mas pra isso, infelizmente ainda não tem equipe aqui na cidade. Já me orientaram a ir pra Campinas, ou contratar uma equipe de lá. De qualquer forma, ainda temos um bom tempo pra pensar e pesquisar sobre isso.

Também não vou desistir de brigar pelo que é certo. O jeito que as mulheres estão sendo atendidas aqui é errado. Ter os seus direitos constitucionais negados é errado. Não ter direito de escolha no seu próprio parto é errado. O SUJEITO ATIVO do parto não é o médico! Não é a enfermeira! Não é o pai, e nem é a mãe. O SUJEITO ATIVO do parto é o bebê! E cabe a todos os outros agentes passivos respeitar a vontade dele - porque adivinha, ele fala. O bebê conta exatamente quando e como quer nascer. Mas isso já é assunto pra outra hora.

E disse uma mulher pra mim: "Junte os caquinhos, e construa um lindo painel colorido!"

Devagar vamos construindo nosso painel. Primeiro, precisávamos saber exatamente o que aconteceu, para que nossa tela tivesse o desenho traçado claramente. Agora, já podemos começar a colori-lo para adquirir experiência quando quisermos pintar novamente.

Prometi a você muitas cores nesse mundo acinzentado, filha. E nós estamos apenas começando a pintura!

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