“O relógio marcava 9h50, o que significava
que eu já estava há uma hora naquela sala. Com frio, com dor, com contrações de
3 em 3 minutos, sozinha. Com medo, muito medo. A cada lágrima que escorria pelo
meu rosto e a cada grito de dor nas contrações que eu dava eu só pensava que
isso tinha que ser um pesadelo, que não podia estar acontecendo de verdade, eu
tinha que acordar.
Depois de todo esse tempo, eu queria
desistir.
E talvez eu tenha que pedir perdão à minha
filha por isso pelo resto da minha vida.”
Este é um relato do meu parto, e
uma carta de desculpas para minha filha, Sofia. Peço desculpas pela escrita um tanto "bagunçada". Levei muitos dias para
conseguir escrevê-lo inteiro, porque não me lembro de tudo exatamente, e porque
dói muito. A cada parágrafo parei para chorar. Cada linha vem com uma pontada
nos treze pontos que se entrelaçam na minha virilha, com um soco no estômago e
outro no coração.
Eu moro numa cidade pequena onde muitos médicos são endeusados. Meu relato vai
me trazer problemas por aqui, críticas de muitas pessoas que vão dizer que o obstetra
“nos salvou”, que eu deveria ser grata, que o que importa é que eu e minha
filha estamos sãs e salvas em nossa casa. Eu gostaria de dizer que graças a quase toda equipe do hospital eu não tenho uma boa noite de sono desde
o ocorrido. Que eu sonho com isso cada vez que fecho os olhos, acordando
empapada no meu suor. E que meu maior desejo é que eu e minha filha pudéssemos
ter sido poupadas desse tipo de tratamento.
Já comentei em muitos lugares que quando engravidei, eu tinha muito
medo do parto. Entenda, sou um mamífero medroso. Tenho medo de agulhas, sangue,
secreções, cirurgias. Tinha medo da dor. Mal sabia eu que a dor que sinto agora
me faria rir das outras que poderiam ter vindo do meu momento mais sublime,
roubado de mim por uma dúzia de pessoas.
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Cheguei no hospital por volta de 6h30 da manhã. Estava em trabalho de
parto desde a 1h da madrugada, com contrações de 5 em 5 minutos. O choque de
estar no hospital era tanto, e o medo de ser engolida pelas violências do
sistema era tão grande que eu consegui dar uma diminuída no ritmo das
contrações.
A febre não me deixava pensar direito, e eu só conseguia imaginar minha
filha sofrendo dentro da minha barriga. “Ela tem que sair logo, ela tem que
sair logo.” – eu pensava. Não prestava mais atenção no meu marido, na minha
doula, na minha parteira. Estava completamente ligada no meu instinto de
sobrevivência, e no que eu precisaria fazer para ter o resto do parto do jeito
que eu considerava digno para meu bebê e para mim.
O primeiro exame foi feito pelo plantonista, que foi bem gentil. Contei
a ele sobre a bolsa rota, e do meu desejo de ter um parto normal. Ele disse que
não me encaminharia para uma cesárea ainda, que eu faria uns exames, e tentaria
um parto normal – mas que essa decisão seria mesmo do próximo plantonista, pois
ele estava saindo do turno dele. Fez o primeiro exame de toque que recebi no
hospital. E foi aí que a tortura começou.
A supervisora, responsável pela maternidade veio falar conosco, sendo bem clara sobre
a regra do hospital de ter somente um acompanhante presente. Disse que estavam
tentando fazer a coisa ali “o mais humanizadamente possível”. Neste momento,
estavam comigo meu marido e minha doula. Entre uma contração e outra, pedimos,
ou melhor, imploramos para que a doula pudesse ficar com a gente. Afinal, é lei estadual. A resposta dada foi
“esta não é a política desse hospital, ela não pode ficar aqui”. Lembro da
minha doula pedindo por favor que ela nos estendesse a mão, e do “não” como resposta. A supervisora ainda disse
que talvez nem meu marido ficasse comigo na sala de pré-parto, pois não tinha espaço físico. Eu, que ainda estava bem lúcida, me lembro de
dizer a ela que isso era um direito meu garantido lei federal e que meu marido ia comigo em qualquer lugar que
eu fosse.
Enquanto a enfermeira me levava para fazer um cardiotoco para ver como
estava o coração da Sofia, tive uma contração no corredor. Ouvi ela dizer:
“vamos, vamos, você não pode ficar aqui!!”... eu queria mandar ela pra puta que
o pariu, cadê a humanidade dessa gente?!
Minha doula foi embora, pra não causarmos mais problemas, e, afinal de
contas, eu estava em trabalho de parto. Meu marido entrou. Só vi que
havia outras três gestantes em trabalho de parto na mesma sala, e que me colocaram
na maca para fazer o exame. Lembro do medo que eu sentia, da mão do Matheus me segurando a cada contração que vinha. Um tempo depois, já sabendo que eu
iria encarar uma cesárea, comecei a chorar. Primeiro baixinho, engolindo as
lágrimas, depois mais forte.
Ninguém entendia minha dor e minha frustração. As enfermeiras diziam
que eu nem sentiria nada, seria anestesiada, como se eu fosse uma menininha com medo de vacina. Enquanto
isso, me colocaram no soro e passaram uma sonda. Chorei mais. O médico disse
que o exame mostrava que minha filha não estava bem, que eu teria que ir pra
cesárea logo. Mas o pânico mesmo aconteceu quando a supervisora voltou de novo
pra me dizer que meu marido não entraria na cesárea comigo, me negando o direito de ter um acompanhante durante o parto.
Ela disse inúmeras vezes que era porque o hospital não tinha centro
obstétrico, somente centro cirúrgico, que não tinha como. Tentava parecer
boazinha, disse que assim que acabasse a enfermeira levaria a Sofia para mamar,
e que ela ficaria o tempo todo com o Matheus. Eu, chorando, disse que tinha
medo de ficar sozinha – ela respondeu que eu não ficaria sozinha em momento
algum, que teria o médico, o anestesista, as enfermeiras. Meu marido dizia “mas
é lei!”, mas em meio a nossa dor e a nosso desespero de ter nossa filha “que
não estava bem” nos braços nos deixamos levar. Afinal, as palavras “Sofia” e “perigo”
não podem estar juntas na mesma frase para mim.
O médico fez o segundo toque que recebi, e foi bem dolorido. Dentre as
palavras que eu me lembro estavam “mecônio”, “taquicárdica” e “cesárea”. Entrei
em um pânico absoluto e comecei a chorar mais. Chorei baixinho, porém, porque
as pessoas que estavam ali não mereciam minhas lágrimas. Elas também não eram
por mim, mas pela Sofia, e pelo momento que eu sabia que seria roubado de nós –
o parto normal.
Me prepararam para subir ao centro cirúrgico. Sonda passada, soro no
braço, roupa trocada, uma nova maca. Meu marido atrás de mim até a porta do
centro cirúrgico. E por fim, um beijo de despedida meu e dele, e a frase “fica
tranquila amor, eu vou tentar de tudo pra entrar aí.”.
Chegando na sala, me passaram
para uma maca minúscula, colocaram uma touca no meu cabelo e me disseram pra
não tocar em nada. A cada contração, de 3 em 3 minutos, eu chorava, gritava e
apertava o ar. Por um tempo, apertei a mão de uma enfermeira que veio, mas depois teve que começar a arrumar a sala e fiquei sozinha de novo. Queria me levantar, queria respirar, ao menos colocar em prática
os exercícios que tinha aprendido para aliviar as dores. Mas eu não podia, não
tinha nada para me segurar, não tinha meu marido - eu estava absolutamente
sozinha, implorando para parir logo a minha cria em perigo.
Meu “logo” demorou uma hora. Fui
deixada assim durante todo esse tempo por uma equipe que me levou para
uma cesárea de emergência. Durante meus gritos, uma enfermeira entrou, fez o
terceiro toque (e o mais dolorido) – me fazendo berrar de dor e frustração.
Ainda me disse que se eu estava gritando daquele jeito com tão pouca dilatação,
nunca aguentaria ter um parto normal.
Durante essa hora, eu rezei, eu
chorei, eu gritei, pedi para que aquilo acabasse. Qualquer intervenção divina,
médica, humana – qualquer coisa. Mas nada aconteceu. Lembro de ter pedido a anestesia logo, mas a enfermeira disse que tinha que esperar o médico, porque precisava "tomar a anestesia e tirar o bebê logo depois". Então seria isso: eu não iria parir. Iriam tirar a Sofia de mim, extraí-la. Deixei de ser sujeito ativo do meu parto, e me tornei o mais passivo possível. Me senti um animal
acanhado e ferido, abandonado e sozinho.
Mas em algum momento o médico finalmente chegou. Ouvi novamente a frase
que se eu estava gritando daquele jeito não aguentaria ter um parto normal. O
anestesista também chegou, e ele foi a pessoa mais humana que conversou comigo durante
toda essa labuta.
Logo que tomei a injeção, parei de sentir as pernas e as contrações. Já colocaram o
pano na minha frente e amarraram as minhas mãos abertas – apesar de eu insistir
muito para não fazerem isso. Me senti completamente cega e impotente, à mercê
do sistema e da vontade de estranhos. Eu
tinha me entregado a tudo aquilo que confrontara durante 9 meses, e estava
diante da situação que fiz de tudo para evitar.
Eu me lembro de, nessa hora, fazer um único pedido (pois eu já não
podia exigir nada presa daquele jeito): deixem que eu segure minha filha quando
ela nascer. Por favor, por favor, soltem
só uma mão para que eu possa pelo menos tocar minha filha quando ela vier ao
mundo. Ninguém me respondeu nada. Ao invés disso, falaram sobre a copa que
tinha acabado, sobre o que fariam quando saíssem do horário de serviço, nenhuma palavra dirigida a mim.
Desculpe por eles, Sofia. Desculpe por tudo isso.
Por fim, ela nasceu. Só senti um puxo e um oco, e vi a Sofia acima de
mim. Pedi para segurá-la de novo, ou pelo menos só pra tocar nela, mas não veio nenhuma resposta. Não sei ao certo se não me ouviam, ou se não queriam me responder. Levaram ela para pesar,
aspirar, chorar, medir e limpar. De certo ninguém ali sabia de um outro direito meu, o de decidir sobre os procedimentos realizados no meu bebê. Mas assim como ninguém me respondeu nada, também nada me perguntaram sobre isso, como se eu fosse uma completa ignorante, que não entendesse nada do que estava acontecendo ali - e mesmo se eu não entendesse, ninguém fez mera questão de me explicar, já que nem falando comigo estavam. Pude vê-la e tirar uma foto com ela, mas não consegui tocar, abraçar ou
cheirar aquela que esteve no meu ventre por nove meses. E, tão rápido quanto
ela chegou, se foi. Não passei nem 5 minutos ao lado da minha filha.
Chorei silenciosamente todo o tempo em que me costuraram. Meu bebê longe de mim, e eu literalmente sozinha ali, com todos os momentos que eu
desejei roubados de mim, seja pela mãe natureza ou pela decisão humana - mas certamente transformados em pesadelo por um sistema duro e sem amor. Meu consolo era saber que ela estava com o pai, embora
eu sentisse um vazio enorme por saber que nunca teríamos outra chance para
aquilo.
Meus ombros doíam tanto que eu não conseguia respirar, e minhas mãos
batiam nas amarras de frio e da reação a anestesia, mas já não me importava mais. A única coisa boa de tudo isso, é que tinha acabado.
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Durante a minha estadia na sala de recuperação, também fiquei sozinha.
Não me lembro ao certo o momento em que trouxeram a Sofia para mamar, acoplaram
ela ao meu peito (porque eu não podia levantar a cabeça), ou as palavras do meu
marido (que me contou depois que só conseguiu subir para me ver nessa hora depois de insistir muito com a enfermeira). Eu estava com muito frio, tremendo muito, e com muita dor nos ombros.
Mas o tempo em que fiquei lá pude pensar muito também.
Esse é o sistema de saúde que trata as suas gestantes como animais. Um
hospital que se chama Santa Casa de Misericórdia, que de compaixão não teve
nada. Um médico que não me considerou digna de uma explicação ou da presença do
meu marido diante do meu medo. Pessoas que não me deu uma palavra de
carinho, mas me negaram direitos e contaram mentiras. E centenas de mulheres
que passam por isso, caladas.
Tem horas que de nada adianta o seu empoderamento. Eu, que me informei
tanto, li tanto, fiz cursos e preparei minunciosamente o meu parto, fui vítima
do sistema, submissa a profissionais da saúde “des-humanizados” e mal tratada.
Ironicamente, esse hospital tem cartazes de apoio ao parto humanizado por toda
a maternidade. A última coisa que o meu parto pode ter sido é humanizado.
Denúncias no Ministério Público e na Vigilância Sanitária feitas, assim
como em diversas ouvidorias, me restam três coisas a fazer. A primeira é
esperar. A segunda, a chamar a todas que passaram por isso a se levantarem
contra essa postura de um lugar que deveria nos orientar e tornar o momento
único do parto mágico, ao invés de trágico – a única coisa que vai mudar esse sistema é a voz de mulheres emponderadas
que gritam, berram e urram por seus direitos.
E a terceira é pedir desculpas para minha filha. Perdão, Sofia, por não
ter te dado o nascimento que eu e seu pai tanto planejamos com amor a você. O
que quer que eu tenha feito, ou deixado de fazer para que isso tenha
acontecido, desculpe a mamãe. Nunca vou ser capaz de mudar o que aconteceu, ou
de te trazer esse momento que deveria ter sido lindo de volta. Perdão pelas
pessoas que te receberam, e pelo modo como o fizeram. Me desculpe pela raiva
que eu sinto. Me perdoe, acima de tudo,
por não ter sido capaz de parir você.
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Como sempre aparecem anjos no caminho, tive duas enfermeiras maravilhosas que cuidaram de mim, da Sofia e do Matheus no pós parto, e que merecem toda minha gratidão: Valéria e Gabriela. As duas me fizeram lembrar que há luz entre trevas. Muito amor para vocês.
Obrigada a meus pais, que me ajudaram muito, a Amélie e Márcia (não tenho palavras para expressar o quanto sou grata a vocês!), e acima de tudo ao grande amor Matheus - minha coragem e força quando as minhas falharam.
- Este relato não tem o objetivo de questionar as habilidades, competências ou decisões técnicas da equipe que me atendeu. Sei que tive uma real indicação de cesárea e não é este o ponto. A questão é o tratamento, educação e informações que recebi. A meu ver, até cesárea pode ser humanizada se houver um pouco de amor por parte de quem a está realizando. Talvez tudo fosse diferente para mim, se eu pudesse ao menos segurar a mão do meu marido enquanto passava por tudo isso. Entendo que a equipe que me atendeu faz muitos partos por dia, e o meu foi só um deles. Mas para mim, foi único, e eu me lembrarei dele para sempre. Sei que todos ali são profissionais da saúde, mas gostaria de ter tido mais amor e carinho no dia mais importante da minha vida.
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Abaixo, as fotos de um trabalho de parto que começou em casa, e acabou no hospital.
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Como sempre aparecem anjos no caminho, tive duas enfermeiras maravilhosas que cuidaram de mim, da Sofia e do Matheus no pós parto, e que merecem toda minha gratidão: Valéria e Gabriela. As duas me fizeram lembrar que há luz entre trevas. Muito amor para vocês.
Obrigada a meus pais, que me ajudaram muito, a Amélie e Márcia (não tenho palavras para expressar o quanto sou grata a vocês!), e acima de tudo ao grande amor Matheus - minha coragem e força quando as minhas falharam.
- Este relato não tem o objetivo de questionar as habilidades, competências ou decisões técnicas da equipe que me atendeu. Sei que tive uma real indicação de cesárea e não é este o ponto. A questão é o tratamento, educação e informações que recebi. A meu ver, até cesárea pode ser humanizada se houver um pouco de amor por parte de quem a está realizando. Talvez tudo fosse diferente para mim, se eu pudesse ao menos segurar a mão do meu marido enquanto passava por tudo isso. Entendo que a equipe que me atendeu faz muitos partos por dia, e o meu foi só um deles. Mas para mim, foi único, e eu me lembrarei dele para sempre. Sei que todos ali são profissionais da saúde, mas gostaria de ter tido mais amor e carinho no dia mais importante da minha vida.
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Abaixo, as fotos de um trabalho de parto que começou em casa, e acabou no hospital.



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