Depois de perder dois bebês, a já conhecida sensação: náusea. Muita, muita, MUITA, M-U-I-T-A náusea.
E com qualquer coisa. Com algum cheiro, alguma cor, alguma comida. Tá, é isso aí, tô grávida. (Será que dessa vez vai?)
Não posso explicar aqui o quanto eu desejava ser mãe. Isso é assunto pra outro post, muito mais longo, e doído, e que talvez nunca saia de dentro de mim. Mas depois de alguns diagnósticos e de ouvir "você não pode engravidar", receber a confirmação do exame de sangue é uma sensação mágica e aterrorizante.
"Pronto, Nathália, você tá grávida de novo. Será que dessa vez vai?"
Perder um bebê, mesmo que você ainda não saiba de que sexo é, e saber que você nunca vai conhecer o rosto dele, também é devastador. É como construir aquele lindo castelo com seu balde de areia quando você tem 5 anos, se sentir super orgulhosa, e de repente vem uma onda filha da puta e leva ele embora. Dá raiva, dá tristeza, e dá um sentimento de incapacidade indescritível.
E no dia 3 de dezembro, olhei pro papel onde tava escrito "POSITIVO" e pensei "Será que dessa vez vai?". Eu tinha outro castelinho de areia construído. Só me restava esperar que dessa vez, nenhuma onda viesse.
Mas veio. E que onda! Não pra destruir o castelo, mas pra dar aquela balançada. Eu não acreditava quando diziam que uma gestação pode virar sua vida de ponta cabeça. Percebo agora a ironia do nome do meu blog.
E veio o segundo mês. Mais enjoos. Idas ao banheiro de 5 em 5 minutos (literalmente). Sono. MUITO sono. E alterações hormonais de deixar o cabrito do avesso - ou melhor, o Matheus. O terceiro mês não teve muitas mudanças. Perdi uns 4 quilos de tanto vomitar. Às vezes eu pensava se não teria vomitado o bebê pra fora.
O repouso era a pior parte. Pra segurar um bebê, segundo o médico eu devia ficar o primeiro trimestre NA CAMA. E cara, como isso pode ser chato. Sua casa ficando suja, sua pia ficando enorme, o sol lindo lá fora... qualquer coisa acontecendo e você ali, deitada, sem fazer absolutamente nada. Foi uma das piores fases. Briguei muito com o Matheus - me sentia carente, sozinha, com os hormônios literalmente caducos e acima de tudo entediada. Não entendia porque eu tinha desejado tanto isso, se era pra ficar nessa pior.
E finalmente, FINALMENTE, chegou o quarto mês. Tinha passado o maior risco, e quanta felicidade! "Dessa vez vai, Nathália. Dessa vez vai.". Agora é hora de começar a pensar no futuro. E o quarto? E a casa? E o dinheiro? E o nome? E o parto? E a dor? E o casamento? E.. e... e...
Era tanta coisa de uma vez só, que chegou o quinto mês e eu nem vi. Os enjoos melhoraram, o sono voltou aproximadamente ao normal. A barriga começou a crescer, mesmo que eu tivesse muitos quilos pra ganhar, já que tinha emagrecido muito. A maioria das pessoas nem percebia que eu tava grávida.
Conheci, nesse mês, a primeira pessoa que me apresentaria as ideias que mudariam o meu modo de encarar muita coisa. Depois de uma conversa com a Amélie, convenci o Matheus a termos a Sofia aqui em casa.
Uh, trabalho árduo, cansativo e triste de tentar convencer todo mundo ao seu redor de que:
1) Você não é louca.
2) Você não é hippie.
3) Você não vai matar seu bebê.
4) Você não é louca.
5) Seu parto não vai ser como o da sua tataravó.
6) Seu parto não vai ser como o da Gisele Bundchen.
7) Você não é louca.
Uma hora você simplesmente cansa de tentar dizer a todo mundo que você NÃO É LOUCA por querer ter seu bebê em casa, mesmo com ninguém querendo ler os livros, matérias, estudos acadêmicos e parafernálias que você constantemente recomenda. Alguns respeitam a sua opinião, outros não. Confesso que é um trabalho ainda inacabado, que eu espero que termine quando a Sofia nascer e eu possa gritar silenciosamente na minha cabeça pra cada um "Tá vendo como eu não era louca?".
O quinto e o sexto mês trouxeram, infelizmente, as dores nas costas. Eu compensava as horas que eu ficava na cama (outra vez!) lendo muito, planejando muito. Me informei demais. Entendi, realmente, o que era o parto humanizado, o que é violência obstétrica, quais as leis que estão ou não do meu lado. Também decidi como seria o quarto, comecei a fazer o tal armário de que já falei por aqui, a pensar no chá de bebê.
Por um acaso, também apareceram muito mais alunos pra ter aula comido, conseguimos dar um upgrade nas dívidas, e finalmente as coisas pareciam estar caminhando pra frente.
Foram os melhores meses, e mais corridos, pra mim - e pra mim e pro Matheus como casal. O sétimo mês chegou, as dores nas costas não deram trela, mas eu estava mais empolgada do que nunca. O chá de bebê rolou, ganhei várias fraldas, o quarto já estava quase pronto, e pra melhorar consegui levar meus pais para assistir o filme "O Renascimento do Parto". Finalmente consegui fazer com que eles respeitassem a minha decisão do parto domiciliar, e o melhor: que me entendessem.
Conheci também, nesse mês, a Márcia, que é doula, e comecei a fazer massagens toda semana. Ah, que delícia!! Fazíamos também semanalmente, o curso de preparação para o parto. Eu, mesmo depois de tudo o que tinha lido, não sabia como as coisas funcionavam realmente - digo, como o bebê REALMENTE sai de você, e o que acontece antes e depois de tudo isso. Foi um pouco assustador. Mas a melhor parte foi ver depois de todos os encontros o Matheus se preocupar comigo e sempre me dizer "Vai dar tudo certo, eu estou aqui, vou estar aqui. Não vou a lugar nenhum."
O oitavo mês passou um pouco mais devagar. Difícil mesmo foi (e ainda é) encontrar uma boa posição pra dormir. O xixi começa a ficar frequente de novo. A barriga começa a pesar um pouco demais. O equilíbrio vai pras cucuias. E eu começo a chorar a cada filme besta que assisto.
E, por fim, chegou o nono mês. Tá bem, parece que fazem milênios que eu não tenho uma boa noite de sono. A minha barriga tá a ponto de explodir, e qualquer duas colheradas de arroz e feijão já parecem muita comida pro meu estômago - embora dali a meia hora eu vá estar morrendo de fome outra vez. Levanto MUITAS vezes pra ir ao banheiro de noite, já quebrei metade dos copos da casa por puro destrambelhamento, as tão indesejadas estrias começaram a aparecer, a depilação virou ritual torturante estilo idade média, e vira e mexe a Sofia encana em encaixar o delicado pézinho nas minhas costelas (não posso dizer o quanto essa sensação é horrível, embora pra ela seja uma delícia). Me resta, agora, caminhar, fazer massagens, e esperar.
Meus nove meses de gestação foram os maiores meses de aprendizados que eu já vivi - sobre meu corpo, minhas capacidades, meu casamento, meu marido, minha casa, minha vida financeira, e sobre minha liberdade - onde cada escolha que eu faço não afeta mais somente a mim.
Também não posso dizer o quanto o apoio da minha família e do Matheus em relação a nossa escolha ao parto significa para mim. Gostaria de ter amor, respeito, carinho e acolhimento de todos - mas já aprendi que ninguém vive no país das maravilhas, e que cada um é cada um. Resta deixar com que vejam a minha experiência.
No último mês também vem de brinde a percepção mais concreta que eu tive: que o oco que esse bebê vai deixar em mim será preenchido pelo amor mais avassalador e maravilhoso que existe. E que isso não vai sarar com o tempo.
Venha, então, Sofia, que eu já espero por você a tempo demais. Venha do jeito que quiser, no lugar onde quiser, que essa tem sido a espera mais longa de todas. Aprendi, nesses nove meses, a aprender.
E continuarei aprendendo com você e por você o resto dos meus dias, se assim tiver que ser.
Com amor, mamãe.
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